segunda-feira, 18 de junho de 2012



A MORTE

        O Dr. Cyro Martins dizia, mais ou menos: “Chore, chore bastante, porque a vida é uma sucessão de tristezas, mas chore por motivos reais, não por imaginários”.

        Ontem revi o filme: Trinta Anos Esta Noite. Para os que não o viram, cito Ricardo Cota, do Jornal do Brasil:

Trinta Anos esta Noite
de Louis Malle

Clássico de Louis Malle realizado em 1963, Trinta Anos Esta Noite mostra a luta de Alain, o atormentado protagonista, contra seu maior inimigo:  ele mesmo. Inspirado no romance de Pierre Drieu La RocheleLe Feu Follet (fogo fátuo), o filme é um resumo das principais reflexões do movimento existencialista.

A angústia diante da finitude do ser, a aflição com o conformismo burguês, a insatisfação sexual e a necessidade da ação como antídoto contra o tédio são temas recorrentes ao longo dos 108 minutos de absoluta densidade, filosófica e cinematográfica.

Alain (Maurice Ronet) é um homem que chega em frangalhos à meia idade. Alcoólatra, está há quatro meses internado numa clínica de repouso em Versalhes. No seu quarto, vivencia o drama da ansiedade perpétua encarando obsessivamente o cano de uma pistola.  "A vida não passa tão rápido para mim, por isso quero acelerá-la", reflete. Incentivado pelo médico, Alain arrisca um retorno à vida social, mesmo sem se sentir preparado.

Em Paris, reencontra amigos e acirra os conflitos mais íntimos ao fazer um balanço de sua vida.  O resultado é desastroso e irreversível. Trinta Anos Esta Noite espelha o retrato de um homem sem fé, incapaz de religar-se ao mundo, seja através da arte, da política ou da religião.
Com belíssima fotografia em preto e branco de Ghislain Cloquet, Trinta Anos Esta Noite é quase um documentário das aflições filosóficas da geração pós-segunda guerra e pré-rebelião estudantil, que tinha em Sartre, Marcuse, Reich e Erich Fromm alguns dos seus principais mentores.

O cineasta Louis Malle equilibra a força do texto a uma estética minimalista, em que o sentido do drama profundo do personagem está no detalhe, nas pequenas impressões do cotidiano, pontuada de forma precisa pela utilização na trilha da música de Erik Satie. Balada da desesperança, Trinta Anos Esta Noite aborda sem concessões o suicídio, resumindo-o a uma derrota do conhecimento, da crença e da vontade.  Um filme que deixa na alma uma marca indelével. 

O filme é uma reflexão sobre a vida e necessariamente sobre a morte, que está ligada, umbilicalmente, à vida. Alguém já disse: “Só há duas coisas inescapáveis na vida: a morte e os impostos”.

O personagem, Alain, passa as últimas vinte e quatro horas de sua existência fazendo retrospectiva, junto a amigos e ex-amantes, para certificar-se de que viveu em vão.  Neste balanço existencial, ele pede socorro a cada um que encontra, informando, claramente, que vai se matar. Recebe, como resposta, ironias e desprezo pelo seu comportamento de bêbado errático.

Quantos de nós já receberam um pedido de ajuda e o rechaçamos, minimizando a tragédia que se encontra atrás de uma depressão?

Não é mais confortável relacionar-se com alguém distante, situado em seu círculo de amigos de sua rede social, do que com alguém que, cara a cara, solicita que lhe dê um pouco de atenção?

sábado, 16 de junho de 2012



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BENCHMARKING

Benchmarking é um processo sistemático e contínuo de avaliação dos produtos, serviços e processos de trabalho das organizações que são reconhecidas como representantes das melhores práticas com a finalidade de comparar desempenhos e identificar oportunidades de melhoria na organização que está realizando (ou monitorando) o benchmarking.

De todas as definições encontradas sobre Benchmarking, destacam-se duas:

O benchmarking é um dos mais úteis instrumentos de gestão para melhorar o desempenho das empresas e conquistar a superioridade em relação à concorrência. Baseia-se na aprendizagem das melhores experiências de empresas similares e ajuda a explicar todo o processo que envolve uma excelente "desempenho" empresarial. A essência deste instrumento parte do princípio de que nenhuma empresa é a melhor em tudo, o que implica reconhecer que existe no mercado quem faz melhor do que nós. Habitualmente, um processo de benchmarking arranca quando se constata que a empresa está diminuindo a sua rentabilidade. Quando a aprendizagem resultante de um processo de benchmarking é aplicada de forma correta facilita a melhoria do desempenho em situações críticas no seio de uma empresa.

Uma definição mais sintética, mas igualmente objetiva: Processo contínuo e sistemático que permite a comparação das performances das organizações e respectivas funções ou processos face ao que é considerado "o melhor nível", visando não apenas a equiparação dos níveis de desempenho, mas também a sua ultrapassagem.

A curiosidade histórica do termo vem das marcas ("marks") que os viajantes deixavam nos bancos ("bench") de descanso para indicar a que distância estavam de Roma (a referência), a capital de um grande império da antiguidade.


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sexta-feira, 15 de junho de 2012


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The Mountain Crypt by Alyn Spiller
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COMO ELABORAR UM ROTEIRO

         Gostaria de ser um novo João Emanuel Carneiro, ganhar rios de dinheiro, sair em todas as publicações importantes, morar no Copacabana Palace, viver cercado de belas mulheres e, o mais importante, como Bozó, ser contratado da Globo?

         Isso não é tão difícil. Difícil é produzir alguma coisa invendável com a parafernália de marketing que a Globo possui.

         É necessário, entretanto, saber algo de produção de roteiros. Vamos nos ater à produção de um roteiro para cinema, tendo em vista que novela é obra aberta. Ela vai sendo elaborada à medida que as pesquisas de opinião vão orientando o caminho, a partir de uma ideia básica.

         Primeiro, vamos imaginar um roteiro clássico, em três atos. Não é o único, mas o mais simples. Cada ato tem uma ou mais cenas. As cenas se sucedem quando muda o local ou o tempo da ação. O tempo do primeiro ato costuma demorar, mais ou menos 30% do tempo total. O tempo do segundo ato, mais ou menos, 50%. O do terceiro ato, 20%.

         Agora, vamos pensar em um argumento bem básico. Existe o personagem principal e os secundários (Podemos criar mais de um personagem principal, assim como podemos criar vários sub enredos, para tornar a obra mais complexa. Uma novela, por definição, tem nove enredos. Estes sub enredos terão seus respectivos personagens secundários).

         O personagem principal, apresentado no primeiro ato, tem que ser bem estruturado, para ser convincente. É importante que ele possua caráter bem definido. Algum estudo de psicologia ajuda neste momento.

             O personagem é apresentado com seu entorno. Este entorno deve possuir, neste momento, característica de baixa emoção, como veremos a seguir. A caracterização do personagem (ou personagens) deve ocupar todo o primeiro ato.

         No segundo ato, é lançado um desafio ao personagem. Pode ser uma agressão física, um revés financeiro, uma doença, uma viagem ou até um desafio filosófico, como a necessidade de mudar de vida. O contato do personagem com seu desafio carrega em si um crescente de emoção, que permeia todo o segundo ato. Quanto mais difícil o enfrentamento do desafio, maior a carga emocional. Admite-se que o personagem aceitou o desafio, senão não teremos enredo.

          O terceiro ato, a conclusão, é o momento em que o personagem consegue (ou não) vencer o desafio. No terceiro ato também é gerada carga emocional, embora não tão forte como no segundo ato. Na conclusão, o autor pode criar final impactante. Na maioria das vezes, o personagem volta à sua rotina, mas agora está mais amadurecido após a batalha que enfrentou.


         ESTRUTURA DO ROTEIRO

         Como já foi dito, os atos são divididos em cenas. Não há necessidade de que essas cenas sem produzidas em ordem cronológica. Elas podem ser escritas separadamente e depois unidas na montagem final. Algumas cenas, às vezes, são acrescentadas e outras eliminadas no processo.

         A descrição do cenário deve orientar o diretor, mas não deve muito detalhada para não limitá-lo.

         Assim, por exemplo:

PRIMEIRO ATO

CENA 1

Cavaleiros reúnem-se, fora da cidade, para combinar o ataque ao xerife, que havia mandado o líder do bando para a cadeia. 

         MALFEITOR 1
O chefe chegará ao meio dia, de trem.

         MALFEITOR 2
Aquele xerifezinho já deve saber que ele voltou para vingar-se. Deve estar morrendo de medo.

O malfeitor 3 apenas os observa enquanto masca um palito de fósforo. 
  
CENA 2

O xerife e sua noiva recebem os cumprimentos dos moradores da cidade, após terem casado.

Etc.

Citei, sem muita precisão, uma cena de um filme clássico, Matar ou morrer, que possui todos os elementos descritos. Esse filme foi, brilhantemente, feito de maneira que o tempo da ação (storyboard) ocupa exatamente o tempo de exibição da película. O tempo, no filme, é permanentemente enunciado por um relógio, marcando a tensão crescente, que explodirá no fim do “segundo ato”.



COMO ELABORAR UM ROTEIRO (MODELO)

PRIMEIRO ATO

Cena 1

A personagem principal, chamada Helena, aproxima-se de um prédio isolado, onde uma placa anuncia: Clínica Ginecológica.
Na recepção:

     HELENA

     Tenho hora marcada com o Dr. Manfredi

Cena 2

No consultório do Dr. Manfredi

     DR. MANFREDI
     Parabéns, Helena. Vi que está grávida. É seu primeiro filho?

     HELENA
     Sim, doutor

     DR. MANFREDI
     Vamos realizar exame clínico e depois vou pedir que 
     você faça   alguns exames de rotina

Cena 3

Helena é atendida pelo Dr. Manfredi, que manuseia os exames

     DR. MANFREDI
Existem alguma anormalidade em seus exames, Helena. Vou ter que solicitar estudos mais específicos.

Cena 4

Helena novamente é atendida pelo Dr. Manfredi

     DR. MANFREDI
Infelizmente, minhas suspeitas foram confirmadas. Você está com um câncer de mama. Tenho que lhe aconselhar que interrompa a gestação e, imediatamente, comece tratamento para o carcinoma. Não é possível tratar a doença com a gravidez em evolução, porque existe o sério risco da criança falecer ou ser gerada com uma séria anomalia.

     HELENA, chorando
     Isso não é possível, Dr. Não existe alternativa?

     DR. MANFREDI
Lamentavelmente, não. A doença já está avançada. Vou lhe encaminhar para um colega oncologista, o Dr. Voltaire, para que lhe examine. Depois volte aqui para a interrupção da gravidez.

     HELENA
Doutor, não posso fazer isso. Não tenho coragem de matar meu filho. Prefiro correr risco de vida. Vou continuar a gravidez.

     DR. MANFREDI
Pense bem, Helena. Cure-se e depois terá oportunidade de ter outro filho. A doença não espera.

     HELENA
     Pensei, Dr. Vou ter este filho

SEGUNDO ATO

Cena 1

Helena, já com a gravidez avançada, tem uma conversa com seu marido, Jonas

     HELENA
Jonas, estamos vivendo momentos muito difíceis. Eu entendo que você ande distante, é uma maneira de evitar o sofrimento. Mas eu tenho fé que tudo irá correr bem, escaparei desta.

JONAS
Não tenho condições de esconder-lhe nada. Antes de sua doença, eu já tinha outro relacionamento. Vejo que não poderei continuar com você. Isso é muito doloroso para mim. Vou sair de casa.

Cena 2

Helena, na maternidade, abraça sua filha, que nasceu perfeita. Suas amigas a cercam. O Dr. Manfredi está presente

    DR. MANFREDI
Meus parabéns. É uma bela menina. Este é o Dr. Voltaire, de quem lhe falei. Ele também veio visitá-la.

    DR. VOLTAIRE
Meus cumprimentos, Helena, você é uma mulher corajosa. Estou lhe aguardando em minha clínica.

Cena 3

Helena está agora no consultório do Dr. Voltaire

    DR. VOLTAIRE
Estou impressionado. A radioterapia deu resultado surpreendente. Houve uma redução significativa do tumor.

TERCEIRO ATO

Cena 1

Helena volta à clínica do Dr. Voltaire, agora com a filha no colo

    DR. VOLTAIRE
Helena, você venceu. O tumor regrediu totalmente. Seu organismo não tem mais câncer. Pode começar vida nova. Parabéns para vocês duas. 
   
Helena nada diz, apenas chora soluçando. Ela é abraçada pelo Dr. Voltaire.

Cena 2

Helena sai da clínica com a filha nos braços. É verão e chove torrencialmente. Quando chega à calçada, para, fecha a sombrinha e seguem as duas, sorrindo, com a chuva no rosto.


Esse roteiro foi adaptado de um telefilme que vi, há muito tempo. Infelizmente não guardei o nome do filme, dos realizadores, porém a cena final ficou marcada em minha memória como uma das mais lindas que assisti .