segunda-feira, 4 de março de 2013





Delfim

         Conta-se que as seguintes pérolas foram pronunciadas por Delfim Netto, ministro da fazenda de governo militar, quando inquirido sobre transferência de renda:

“Precisamos primeiro fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”.

“Primeiro instaura-se o faroeste e depois se contrata o xerife”.

“Governo para quarenta milhões de brasileiros. Os outros oitenta virem-se com Deus”.

         O suposto autor dessas frases é o consultor favorito do presidente da república que fez a maior transferência de renda na história deste país.




domingo, 3 de março de 2013







O comportamento coletivo do brasileiro é sempre um enigma. Interpretar cenários no Brasil constitui importante desafio para qualquer analista. Talvez por isso, Tom Jobim, com sua longa vivência no exterior, tenha afirmado: “O Brasil não é para principiantes”.

Maynard Marques de Santa Rosa é General de Exército na reserva.







O galã de Cacequi


Nos tempos da minha juventude em Alegrete, a maneira mais fácil de se chegar a Porto Alegre, senão a única, era ir de trem. A famosa VFRGS (Viação Férrea do Rio Grande do Sul ou Vovô FoiRoubar Galinha Sozinho, dos ingênuos trocadilhos da época), estava no auge. Seus trens serviam o estado de maneira intensa, indo e vindo de Porto Alegre a Uruguaiana, passando por Alegrete, entre tantas outras cidades. Era quase uma epopeia ir de Alegrete a Porto Alegre. Tomava-se o trem que vinha de Uruguaiana pela manhã, viajava-se o dia inteiro até Santa Maria, onde era preciso fazer uma baldeação para outro trem. Depois, viajava-se a noite inteira para chegar a Porto Alegre de manhã cedo, no dia seguinte.


Uma das estações onde o trem parava era a de Cacequi, grande entroncamento ferroviário da época.


Era uma estação imensa para os meus olhos interioranos.


Na sua plataforma desfilavam figuras incríveis, apressadas em pegar outros trens.


Na multidão de viajantes apareciam também alguns habitantes da pequena cidade, que iam ver a única atração do local: a chegada de um trem.


Alguns rapazes da cidade vestiam sua melhor roupa para apreciar o grande espetáculo da multidão de viajantes.


Entre eles, podia-se notar sempre um tipo que usava melena bem cuidada, com bastante fixador (Glostora? Gumex?), camisa de mangas compridas, mangas dobradas, levando sempre um rebenque, daqueles revestidos de linhas coloridas, feitos por presidiários. Nós, jovens modernos, que escutávamos Paul Anka e Elvis Presley no Telefone Pedindo Bis da Rádio Bandeirantes de São Paulo, logo o apelidamos de “Galã de Cacequi”. O tipo desfilava olhando para dentro dos vagões estacionados, na esperança de despertar a atenção de alguma moçoila curiosa. Batia o rebenque nas coxas, numa demonstração de que era o senhor do pedaço. Esse tipo fez escola, pois cada vez havia mais galãs.


Que saudade da VFRGS e das horas que passava vagando de vagão em vagão, embalado pelo barulho cadenciado das rodas do trem sobre os trilhos!


Ela fez parte da minha história, da minha caminhada em direção ao mundo.


“Caminho de ferro, mandaram arrancar…”, como diz Milton Nascimento em “Ponta de Areia”.

Erion Renato Pozzobon

sábado, 2 de março de 2013


OLHA AÍ O CIRO (CIRCO)!


No começo desta semana, logo depois de abalar as fundações dos barracos do PSB (seu partido) ao criticar ferinamente o governador Eduardo Campos, pretendente forte a candidato presidencial ano que vem, o esquentado ex-governador do Ceará e ex-ministro dos governos de Itamar Franco e de Luís Inácio Lula da Silva, Ciro Gomes, pousou na capital baiana soltando labaredas pela língua e pelo nariz.

Enquanto o governador petista da Bahia, Jaques Wagner, ainda jogava panos quentes na tentativa de amainar as feridas aberta pelo político cearense nas relações PT-PMDB, Ciro, antes de fazer palestra em um encontro com empresários na Bahia, reforçou e ampliou ainda mais as críticas de dois dias antes.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail vitor_soares1@terra.com.br




  VIVA O GÊNIO

Quando Dr. King Shultz propõe a Django, após libertá-lo,  dividir com ele os lucros de sua atividade, caçar e matar foragidos da justiça, o recém-alforriado escravo diz: -Matar brancos e ainda ganhar dinheiro com isso? Pode contar comigo!

Ficção? Ou nossa vida afetiva não passa de um filme de Quentin Tarantino, em que as disputas são resolvidas à bala ou de outras maneiras mais sofisticadas de matar?

Tenho um vizinho jovem, certamente, que, como um pavão gosta de exibir suas plumas, necessita mostrar a todos que tem uma moto. Por isso, passa os dias esganiçando o motorzinho de 125 cilindradas, atazanando o sossego de todos. Sonho com a possibilidade de derrubá-lo com uma calibre doze, quando passa.

Falei com um amigo, que me visitava, e ele propôs algo mais eficiente e, por que não dizer, mais poético? Substituir a carabina por um fio de arame, estendido na rua, na altura da garganta do barulhento.

Tudo é fantasia, mas qual a distância desta fantasia para a realidade?

Talvez exista uma parte de mim que se irrita porque meu território, o acústico, foi invadido pelo rapaz.

Já pensaram que passamos quase toda nossa vida a exercitar nosso bang bang interior, lutando por territórios?

Quando um empregado em empresa, pública ou privada, fala mal de um colega para o chefe, ele não está querendo ficar mais próximo e receber bênçãos do macho (ou da fêmea) alfa e ampliar seu próprio território?

Meninas pobres de doze ou treze anos andam com vestido curto e apertadíssimo, na rua ou em casa. Certamente querem atrair machos que as engravidem. Do ponto de vista humanista cristão, isto é uma tragédia, pois estão colocando no mundo inocentes que não terão as mínimas condições de sobrevivência.  Do ponto de vista antropológico, estão certíssimas. Isso é poder, o poder da perpetuação da espécie. Atraindo machos que as protejam, ganharão seu próprio território.

Quando o a polícia civil, militar, federal e a marinha começaram a ocupar os morros cariocas, para melhorar a imagem do Rio de Janeiro por ocasião da copa e das olimpíadas, não pretendiam acabar com o tráfico e sim desalojar os traficantes. Sim, a invasão nos morros não passou de uma luta por territórios.

Os líderes árabes fundamentalistas querem destruir o ocidente porque, segundo ele, o ocidente é composto de pervertidos, que não seguem as determinações de Maomé. No entanto, muçulmanos lutam contra muçulmanos. Tem lógica? Tem. As lutas fratricidas não passam de ancestrais lutas tribais por território.

Os palestinos martirizam-se explodindo na frente dos judeus que, por sua vez, armam expedições punitivas quando são mortas centenas de pessoas inocentes. Alegam diferenças religiosas. Não acredito. A religião muçulmana tem muito mais identidade com a Torá do que divergências. Afinal, os princípios de Maomé foram tirados, na sua maioria, do Antigo Testamento, que, por sua vez, baseou-se em lendas e contos pagãos muito mais antigos. Esses povos devem estar lutando por território.

Durante a guerra fria, Estados Unidos e União Soviética se digladiaram e quase destruíram a humanidade por questões ideológicas. O cidadão americano dizia: “prefiro ser uma democrata morto que um comunista vivo”. Nesse caso, havia disputa ideológica, porque ela significava diferentes concepções de vida. Mas subjacente à disputa ideológica, havia disputa territorial pelas nações envolvidas.

Voltando à nossa questão inicial, citei situações que simplesmente, são extensões da fantasia que, individualmente, criei. Muitas vezes o inconsciente e o consciente comportam-se como num filme de Tarantino.

E não é genial um diretor que consegue  traduzir sentimentos básicos de toda a humanidade?

sexta-feira, 1 de março de 2013




"Lembro-me de acordar uma manhã e encontrar tudo manchado com a cor do amor esquecido."
- Charles Bukowski





Carrie Lingscheit - Momentos (2010)