quarta-feira, 19 de março de 2014




MARCOLA


Leia a entrevista com o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola , ao jornal O Globo
Estamos todos no inferno. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema
O GLOBO: Você é do PCC?

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…

O GLOBO: – Mas… a solução seria…

- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

O GLOBO: – O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Você s, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?

O GLOBO: – Mas… não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.


quarta-feira, 12 de março de 2014




O Nascimento de Vênus

Quando eu tinha treze anos e morava em Alegrete, minha prima de dezessete, de Quaraí, foi residir conosco.

Em Quaraí não havia Curso Normal, que formava professoras primárias na época. Então minha tia, irmã do meu pai, arranjou com minha mãe para que a filha fosse para Alegrete estudar, hospedando-se em nossa casa.

Fiquei fascinado com a presença da prima, pois ela iria substituir minha irmã que havia casado e morava em outra cidade. Não foi bem isso que aconteceu. Aos poucos eu comecei a nutrir por ela sentimentos bem diferentes dos fraternos, pois era uma moça muito linda.

Eu me apaixonei pela prima, como não podia deixar de ser. O famoso amor de prima me flechou...

Só queria estar com ela, sair com ela. A moça me dedicava uma afeição de irmã e descartava polidamente o primo chato, quando queria sair com suas amigas.

O sentimento foi crescendo e eu ficava cada vez mais apaixonado em silêncio.
Naquela época em minha casa não tínhamos chuveiro elétrico e, no inverno, 
tomávamos banho em uma grande bacia de alumínio, com água aquecida no fogão.

Um dia a prima foi tomar seu banho quente e eu fui espiar pelo buraco da fechadura.
A cena que vi era o quadro de Sandro Boticcelli, “O Nascimento de Vênus”, que eu havia conhecido no “Tesouro da Juventude”.

Lá estava a prima dentro da bacia de alumínio, nua, linda, perfeita, cabelos soltos, como a Vênus do quadro.
Para mim não existia mais a bacia nem a prima e sim uma grande concha de onde Vênus emergia, ladeada de musas...

Foi minha primeira paixão e sofri muito quando ela foi estudar em Santa Maria.
Meses depois uma amiga minha, que estudava no mesmo colégio que minha prima em Santa Maria, veio passar as férias de julho em Alegrete.

Fui logo perguntando pela prima, se ela a conhecia, como ela estava, etc.
Então a amiga inflamou meu coração de treze anos dizendo que não só a conhecia, mas como ela falava muito em mim e havia me mandado um presente por outra colega.
Pronto! Saí como louco procurando a casa da tal colega para buscar o presente, a prova de amor que eu tanto esperava!

Não havia presente algum. A moça não sabia de nada.
Saí pelas ruas chorando e fui sentar num banco da Praça Getúlio Vargas, onde permaneci vertendo minhas lágrimas, me sentindo o mais infeliz dos mortais...
Nas férias de final de ano, soube que ela iria passar por Alegrete em direção a Quaraí, viajando de trem.

Corri para a estação e pude vê-la dentro de um vagão conversando com seus amigos alegretenses, que também foram matar as saudades.
Tentei chegar perto para abraçá-la, mas fui impedido por um cara mais velho, seu fã ardoroso, que me fez perceber a minha insignificante presença.

O trem partiu gemendo apitos e ela me acenou pela janela, sorrindo, sem jamais imaginar que deixava um coração partido naquela plataforma de estação.
Anos mais tarde, quando eu viajava para Porto Alegre, encontrei-a no mesmo trem com um filho nos braços, ao lado do marido.

Alguma coisa estranha bateu forte em mim, mas apenas sorri me lembrando da minha escaldante paixão de adolescente.
Conversamos rapidamente e cada um seguiu seu caminho.

Pensando bem, o saudoso Maria Fumaça e suas estações foram o pano de fundo de muitas estórias...

Renato Pozzobon