SALVADOR DALI, MOSTRA EM VENEZA
quarta-feira, 13 de junho de 2012
terça-feira, 12 de junho de 2012
PAULO COELHO
O intelectual está
morto, viva o internectual.
O que é um efeito viral?
O que é uma campus party?
O que você pensa dos livros
eletrônicos?
Um intelectual da velha
guarda responderia: é o efeito de uma febre tipo dengue, uma festa de formatura
em uma universidade e “gosto do cheiro de papel”.
A resposta certa é: efeito
viral é o conjunto de comentários sobre determinada obra que se propaga
independente da crítica especializada, campus party são megaventos de
blogueiros que acampam em qualquer parte do planeta para discutir ideias.
Os nerds, que outrora eram chamados
de cdf, criam vasos comunicantes e ocupam de maneira avassaladora, sem pedir
licença, o espaço reservado para os pseudoeruditos, que sempre julgaram
conhecer melhor o que o povo deve ou não ler, embora se digam democratas.
O livro Fifty shades of grey somente
foi “descoberto” pelas editoras que fazem o tal de livro com cheiro de papel,
depois que a versão eletrônica tinha vendido 2,5 milhões de exemplares.
Pelo primeira vez na história, temos
acesso irrestrito a bens culturais. Com o advento da internet, todos puderam
expressar o que pensam a respeito de qualquer tema, incluindo as obras
literárias. Quando alguém deseja comprar um livro, não vai procurar os comentários
da crítica especializada, mas daqueles que já leram.
Sempre foi assim, mas agora a
propaganda de boca a boca foi potencializada pela tal da propagação viral.
Assim, um escritor pode encontrar seu lugar ao sol de maneira rápida e efetiva.
A internet não é uma ameaça à
literatura, sobretudo porque ainda é um meio escrito e, para que se escreva, é
preciso ler. Tem que se entender que, da mesma maneira de que o mercado está
mudando, a maneira de escrever também está mudando.
Shakespeare, Flaubert e F. S.
Fitzgerald foram criticados quando surgiram, porque sua maneira de escrever
subvertia as regras usuais da escrita.
Não tenho nada a reclamar com
isso, Na verdade, sou parte interessada. Embora a crítica especializada nem
sempre tenha sido gentil comigo, afirmando que eu era apenas um fenômeno da
moda, meu primeiro livro, Diário de Um Mago teve festejado o jubileu de prata
de vendagens recordes.
Com o advento da internet, passei a
escrever para blogs e comunidades sociais. Com isso, ampliei o alcance daquilo
que julgo importante dizer.
Apesar disso, uma grande quantidade
de escritores jovens ainda sofre aquilo que chamo de síndrome de Van Gogh, isto
é ter reconhecimento só após sua morte. Gastam imensa energia em busca de
reconhecimento que já não está nas mãos daqueles que pensam detê-lo.
Escritores, aproveitem este momento
único. E mãos à obra, porque qualquer sonho dá muito trabalho.
Quando surgiu a Wikipédia, os
críticos disseram que não teria credibilidade, nada substituiria e Enciclopédia
Britânica. Agora esta vetusta publicação encerrou suas publicações impressas.
Respondendo à última questão, devo
confessar que jamais senti cheiro de papel.
O intelectual está morto, viva o
internectual.
RESUMO DE ARTIGO DE
PAULO COELHO PUBLICADO NA REVISTA ÉPOCA EM 4/6/2012
ANGÉLICA
Chegou cedo, de ônibus, à pequena
cidade onde deveria realizar fiscalização.
Foi recebido pelo gerente, extremamente
solícito. No fim da manhã já estava com seu serviço concluído. O gerente o
convidou para almoçar. Após o almoço, como teriam que aguardar até à noite para
ele pudesse tomar o ônibus de retorno, fizeram roteiro turístico pela cidade,
atividade que logo estava concluída, ela era pequena.
Foi aí que o gerente o convidou para o
único programa possível, visitar o melhor cabaré da cidade, orgulho dos
moradores.
No local, uma bela residência, estilo
colonial, foram recebidos pela proprietária, que ofereceu bebidas, por conta da
casa. Neste momento, apareceu Angélica.
Angélica era uma graça, corpo perfeito,
no auge de seus vinte e poucos anos, muito simpática. Ele, que tinha vindo
apenas para ser educado com seu gerente, viu mil pensamentos correrem por sua
mente, em uma fração de segundo. Quem sabe? Afinal, poderia ser apenas uma pequena
diversão, ele que era casado e amava sua mulher.
Em um impulso, convidou Angélica para
um quarto. Ela disse, em divertido gesto, com o polegar para trás, por cima do
ombro, que não fazia sexo anal.
Tomaram banho juntos e Angélica, ali
mesmo, começou um trabalho de felação irresistível. Ele, automaticamente, a
comparou com sua mulher, que nunca tinha apresentado uma performance ao menos
comparável. Após muitas carícias, em que ele, encantado, também procurou retribuir
da melhor maneira que sabia, transaram.
Uma relação tão gostosa teria que se
repetir. Entretanto, ele necessitava tempo para recuperar-se. Foi então que
Angélica começou a falar.
Seu nome era Angélica mesmo e seu
sobrenome era Vicentini. Contou que era originária de uma família tradicional
em uma cidade vizinha, bem maior que aquela. Disse ter namorado, noivado e
casado com o comandante do corpo de bombeiros da região. Amava muito o marido. Ele,
muito ciumento, a proibiu de trabalhar, devendo somente cuidar da casa deles.
Angélica fazia de tudo para agradar o amado,
fazendo comidinhas gostosas, cuidando de seu uniforme, atendendo a todos seus
desejos, inclusive fazendo sexo oral nele enquanto viam novela.
Um dia, uma amiga íntima
confidenciou-lhe que o comandante a traia com uma ex-colega de colégio. Mais
tarde, ela confirmou o que a amiga tinha lhe falado.
Aquilo foi um choque demasiado para
Angélica, que pirou. Em um momento em que o marido tinha saído para trabalhar,
pegou seus principais pertences e sumiu da cidade.
Pegou ônibus para essa cidade, não
muito longe de sua cidade natal, porque era o que o dinheiro permitia. Ao
chegar ao novo município, como não tinha nenhum recurso, nem onde morar, nem o
que comer, acabou prostituindo-se, porque dar prazer a homens era a única coisa
que tinha aprendido em seu casamento.
Essa era a história de Angélica, triste
como tantas outras.
Ela recomeçou a acariciá-lo e logo ele
estava excitadíssimo. Angélica perguntou se ele não desejava fazer sexo anal
com ela. Ele entendeu que o sexo anal era reserva afetiva de Angélica, para
clientes como ele. Disse que poderiam deixar para outra ocasião. Teve a transa
mais intensa de sua vida, recheada de carinho e emoção.
Prometeu a Angélica retornar logo, ao
que ela respondeu com um olhar agradecido.
Nunca mais voltou àquela casa, embora
tivesse feito outras visitas à cidade. Não voltou por medo. Medo dele mesmo. Angélica era uma pessoa especial. Ele sabe que
aquela relação poderia ter sido perigosa para ele, sua família e seu emprego.
Ficaram, entretanto, para sempre, em sua lembrança, aqueles momentos de
intimidade e, porque não, de um profundas emoções em pequeno período de tempo.
Pensa, sempre, com um sorriso interior,
que é um dos raros homens a quem uma prostituta forneceu nome e sobrenome.
ALEGRETE
Estive lá. A cidade é menor do que a lenda
SHERLOCK DOS PAMPAS
Muciano era
inspetor de polícia no município do Alegrete. Com uma rotina tranquila,
aguardava sua aposentadoria para breve.
Em um belo
dia, após virar a erva para mais uma rodada de chimarrão, foi interrompido pelo
toque de seu celular. Era o delegado Dornelles solicitando que ele se dirigisse
com urgência ao sítio de seu Altamiro.
Ao chegar ao
local, ouviu choro convulsivo ao passar pela porta entreaberta. Na sala, estava o Altamiro bem morto com um certeiro faconasso no coração. O choro era da recente
viúva, que tinha encontrado o corpo do marido.
Muciano, com
a calma de bom profissional que era, examinou cautelosamente, primeiro o corpo,
depois o ambiente, enquanto aguardava a chegada do Dr. Euclides, médico
legista.
A arma do
crime estava junto ao corpo. Segundo a viúva, pertencia ao morto. Seria bom
manuseá-la com cuidado, pois poderia conter impressões digitais.
Havia alguns sinais de luta, mas
nenhum indício de arrombamento, o que afastava a possibilidade ter sido morto
por um estranho.
Após
consolar a viúva da melhor maneira que pode, fez as perguntas de praxe, se ele
tinha inimigos ou devia para alguém. Ela disse que o marido tinha temperamento
irascível, tendo alguns desafetos. Não tinha dívidas não pagas, pelo que ela
sabia. Segundo ela, aparentemente, nada tinha sido levado, afastando a
possibilidade de assalto.
Muciano
voltou a seus afazeres enquanto aguardava o resultado da perícia. Recebendo o
relatório técnico, ele soube que não tinham sido encontradas impressões
digitais, além das do morto e de sua mulher, os únicos moradores na casa.
Resolveu
voltar ao local do crime, para um exame mais detalhado. Não encontrou nada novo
que ajudasse a elucidar o mistério. Teve uma ideia. Solicitou à viúva uma
vassoura e cuidadosamente, varreu a sala.
Entre os
diversos detritos, encontrou um fio preto, curto, que parecia fio de cabelo.
Entretanto, era muito grosso, poderia ser pelo de algum animal. Guardou o
achado.
Conversando
com conhecidos do morto, ficou sabendo que ele não tinha amigos, por seu
temperamento. Era uma pessoa comum, Sua única paixão era o jogo de truco, que
ele praticava todas as sextas feiras.
Foi
conversar com os parceiros do defunto. Ficou sabendo que o jogo era a dinheiro
e, às vezes, havia acaloradas discussões por motivo de não pagamento de
apostas. Um dos jogadores ficou muito tenso quando foi inquirido, segundo
apreendeu Muciano, com sua longa experiência. Insistindo com ele, ficou sabendo
que Altamiro tinha acumulado uma considerável dívida de jogo com ele.
Muciano viu
que tinha um suspeito. Mas como provar isso? Ao sair da casa dele, viu um
cachorro preto, um vira lata. O bicho, ao ser chamado, veio feliz, abanando o
rabo. O inspetor fez uns afagos nele e vendo que, no seu dorso, tinha um pelo
solto, apanhou-o.
Solicitou à
polícia técnica exame de DNA dos dois pelos. Demorou um pouco, porque o exame
teve que ser realizado em Porto Alegre. A resposta confirmou a suspeita de
Muciano. Os dois pelos pertenciam ao mesmo animal.
Com o exame
em mãos, procurou o suspeito. Contou-lhe tudo que tinha descoberto. O homem,
depois de profundo suspiro, confessou o crime.
Disse que tinha
ido cobrar a dívida de Altamiro. Ele não só disse que não a pagaria como o
destratou. No meio da discussão, Altamiro puxou seu facão e atacou João Abel,
era esse seu nome. Abel conseguiu desarmar Altamiro e o golpeou no coração. Ao
sair, teve o cuidado de limpar todos os vestígios, inclusive impressões
digitais.
Não contava com o cusco, aquele desgraçado,
que o seguia a toda a parte, como uma sombra, muda testemunha.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Recebi da Ana Carolina, em 2008
Processo de
seleção da Volkswagen - Redação Vencedora
Num
processo de seleção da Volkswagen, os candidatos deveriam
responder a seguinte pergunta:
"Você tem experiência?" A redação abaixo foi desenvolvida por um dos candidatos. Ele foi aprovado e seu texto está fazendo sucesso e ele com certeza será sempre lembrado por sua criatividade, sua poesia e, acima de tudo por sua alma.
REDAÇÃO VENCEDORA:
Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei brincando com vela.
Eu já fiz bola de chiclete e melequei
todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser
bruxo.
Já quis ser astronauta, violonista, mágico,
caçador e trapezista.
Já me escondi atrás da cortina e
esqueci os pés pra fora.
Já passei trote por telefone.
Já tomei banho de chuva e acabei me
viciando.
Já roubei beijo. Já confundi
sentimentos.
Peguei atalho errado e continuo
andando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela de arroz
carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música
no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas
descobri que essas são as mais difíceis de esquecer.
Já subi escondido no telhado pra
tentar pegar estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já caí da escada
de bunda.
Já fiz juras eternas, já escrevi no
muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de
casa pra sempre, e voltei no outro instante.
Já corri pra não deixar alguém chorando, já
fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.
Já vi pôr do sol cor-de-rosa e
alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar, já
bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios, já olhei a
cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.
Já senti medo do escuro, já tremi de
nervoso, já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o
sorriso de alguém especial.
Já acordei no meio
da noite e fiquei com medo de levantar. Já apostei em correr descalço na rua,
já gritei de felicidade, já roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era para sempre,
mas sempre era um "para sempre" pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi
a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri
que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas,
momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú,
chamado coração.
E agora um formulário me interroga,
me encosta na parede e grita: "Qual sua experiência?". Essa
pergunta ecoa no meu cérebro: experiência. Será que ser
"plantador de sorrisos" é uma boa experiência? Não!
Talvez eles não saibam ainda colher sonhos! Agora gostaria de
indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta:
Experiência?
Quem a tem, se a todo o momento tudo se renova?"
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