domingo, 7 de agosto de 2016


HÁ UM FANTASMA
RONDANDO
OS JOGOS OLÍMPICOS

         
        Na festa de abertura dos jogos olímpicos no Brasil, o primeiro país sul americano a sediar uma olimpíada, houve um personagem que, como Hamlet, esteve assombrando aquela festa.

         Sim, ele mesmo, Luis Inácio Lula da Silva.

         Lula era torneiro mecânico, vindo dos confins do nordeste, sem educação formal, mas com capacidade de liderança extraordinária. Ao fim ditadura militar, foi cooptado por um grupo de intelectuais, José Dirceu inclusive, para ser uma espécie de aríete da esquerda na nova política que se formava.

         Candidato à presidente, pelo Partido dos Trabalhadores, legenda que angariou logo a simpatia dos brasileiros, não conseguia se eleger. Foi, então, que um de seus mentores teve a brilhante ideia de contratar um marqueteiro, desses que garantem vitórias para tantos políticos de direita.

         Com Duda Mendonça, tudo mudou. O discurso raivoso, contra o patrão, eficiente na porta da fábrica, foi substituído pelo bordão amável “Lulinha, paz e amor”, que traduzia mensagem hippie de um paraíso psicodélico. Esse bordão estava mais para Buzina do Chacrinha, mas, mas no deserto de ideias, funcionou. Lula foi eleito.

         O primeiro mandato foi quase mágico. Lula pegou governo organizado pelos financistas de FHC, economia global que crescia vertiginosamente puxada pela locomotiva China e sociedade brasileira encantada pela simpatia de seu mandatário chefe.

         O bolsa-família foi considerado, pela UNESCO, programa padrão para erradicação da miséria. Foi catapulta para Lula ser uma das principais lideranças mundiais. (a propósito, o bolsa família foi criado por Ruth Cardoso, mas isso foi eclipsado pelo brilho de nosso Guia).

         Lula teve um segundo mandato, não tão bom quanto o primeiro, mas, ainda mantendo grande liderança, agora, já com o aparelhamento do Estado.

         Lula não teve coragem de alterar a Constituição para ser eleito uma terceira vez. Preferiu voltar em 2014. Tinha cacife para isso.

         Nesse momento histórico, Lula cometeu dois erros mortais, resultado da fragilidade de sua educação básica. Primeiro, indicou para sucedê-lo, Dilma Rousseff, uma nulidade, um zero à esquerda. Segundo seu plano, Dilma faria governo medíocre e ele, logo, seria eleito novamente nos braços do povo, na base do “volta Lula”. Segundo, rendeu-se ao canto de sereia das grandes empreiteiras de obras públicas. Conseguiram convencê-lo de ser um embaixador das esquerdas junto a ditaduras que juravam professar o mesmo ideário, conseguindo obras, financiadas com empréstimos oriundos do BNDEs.

Nesse momento, começou o calvário de Lula. Dilma, ao fim de um desastrado governo, resolveu continuar presidente, mostrando que além de medíocre, era cabeça dura e ambiciosa, algo que ele não contava. Quando pressionou para que deixasse o poder, ela chantageou-o com a ameaça de publicar as despesas do cartão de crédito corporativo de Rosemary Noronha, sua amante. Ele recuou. Por outro lado, os parceiros de crime, presos por Sérgio Moro, ao primeiro aperto, abriram a boca, entregando seu “embaixador”. Lula não se deu conta que eles não eram movidos à ideologia, simplesmente eram bandidos.

         Luis Inácio Lula da Silva deveria ser o grande homenageado, tanto na abertura da Copa do Mundo como na Olimpíada, ele que utilizando seu enorme prestígio pessoal, trouxe essas competições para o Brasil.

         No entanto, Lula dedica todos seus esforços para não ser preso e condenado como um reles ladrão. Lula conseguiu destruir sua vida e assassinar sua biografia. Shakespeare não poderia imaginar tanta tragédia.
        
        

         

terça-feira, 28 de julho de 2015








ESSES HOMENS


         Ela estava esperando seu voo no aeroporto, quando viu, bem próximo, o cantor que ela adorava, sozinho. Criou coragem, abordou-o dizendo que era completamente apaixonada por ele, tinha todos seus discos, etc.

         Pediu uma foto, para mostrar para as amigas. Ele acedeu, fizeram uma selfie. Ela agradeceu, fez menção de beijá-lo na face. Ele lhe deu um leve beijo na boca.

         Ela saiu pisando em estrelas. Em casa, contou para o marido, dizendo como estava feliz, com o encontro com o ídolo. Relatou todo o incidente, sem ocultar o beijo na boca.

         A reação do marido foi fria. Ela uma mulher casada, deveria se preservar. Imagina se algum conhecido tivesse presenciado. Foi um banho de água fria.

         Não desanimou, entretanto. Mais tarde, com o amante, contou-lhe a mesma história. Ele ficou furioso.

         

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015



Qual a melhor idade para a maioridade penal?

         Em 12 de fevereiro de 1993, Jon Venables e Robert Thompson assassinaram, por motivos fúteis, James Bulger, dentro de uma estação de trens, em Liverpool, Inglaterra. Ambos foram presos, julgados e condenados à prisão perpétua. Seria mais um crime se os assassinos não tivessem, à época, 11 anos e sua vítima, 2 anos.

         Ao que me conste, não existe, na Inglaterra, maioridade penal aos 10 anos ou menos. Existe um equivalente nosso ao estatuto do menor, extremamente rigoroso.

         Não estou entrando no mérito na legislação penal inglesa. Penso na discussão exacerbada, pelo povo brasileiro, da maioridade penal no país.    

         Se Jon e Robert fossem brasileiros, seriam internados em uma instituição para menores e, aos 18 anos seriam libertos para tocar a vida. Se mudasse a maioridade penal para 16 anos, aconteceria a mesma coisa com eles. Se mudasse para 14 anos, idem. Se mudasse para 12, também.

         Vamos, apenas para raciocinar, que a maioridade penal no Brasil fosse 10 anos. Sendo maiores, do ponto de vista legal, os meninos apenados iriam para uma prisão de adultos. Não poderiam ficar em um estabelecimento diferenciado porque, legalmente, eles seriam maiores. Sabemos das condições de nossos presídios. Devido a sua pequena constituição, seria quase o mesmo que condená-los à morte, mediante tortura.

         Será que essa discussão sobre maioridade penal não está mal encaminhada? Será que quem defende a maioridade penal aos 16 anos, ou aos 14 anos (os defensores não gostam de números ímpares) não tem necessidade de simplificar um assunto extremamente complexo, alimentado por necessidade de vingança, não de justiça?

         Não seria mais lógico revisar nosso estatuto do menor, tornando-o mais exigente fazendo, por exemplo, que o autor de crime hediondo continuasse a cumprir pena, em presídio, depois de ter atingido 18 anos?




segunda-feira, 12 de janeiro de 2015




RELIGIÃO PROVOCA VIOLÊNCIA?

Nos últimos dez anos, 101 torcedores morreram em brigas de estádio no Brasil. O número é cinco vezes o de mortos em ataques de terroristas muçulmanos na França e o dobro das vítimas da Inglaterra no mesmo período.

Podemos então dizer que esporte mata? Que o futebol provoca violência? Pois é exatamente o que fazemos quando culpamos a religião pelo terrorismo.

A crueldade do ataque aos jornalistas do Charlie Hebdo faz muita gente ligar os pontos e afirmar que religião causa violência. Gente graúda pensa assim – como Richard Dawkins, na minha opinião um dos gênios vivos da ciência. Também parece haver bons argumentos para essa ideia. As cruzadas, as carnificinas entre protestantes e católicos nos séculos 16 e 17, os conflitos entre hindus e muçulmanos na Índia: banhos de sangue em nome da fé são frequentes na história.

Mas isso é um mito. Religião não provoca violência, ou melhor: provoca tanta violência quanto qualquer identidade de grupo. O homem mata em nome da fé, mas também em nome de ideologias políticas, da nação, de etnias, da escolha sexual, do estilo de roupas e músicas (como as gangues de Nova York dos anos 80) ou em nome de times de futebol. O problema não é a religião, mas a tendência humana à hostilidade entre grupos.

Para entender esse padrão é preciso ir longe – até o momento em que violência entrou para o repertório de comportamentos humanos, há algumas centenas de milhares de anos.

Nas savanas da África, onde o homem passou 90% de sua história evolutiva, ficar sozinho não era uma boa ideia. Significava estar vulnerável a animais ferozes e a ataques de tribos vizinhas. A solidão também resultava em fome, pois a caça de grandes animais da megafauna (o big game) exigia ação coletiva e coordenada.

Para sobreviver e ter filhos, era preciso pertencer a um grupo. Fechar um “pacto ou conspiração baseada em interesses mútuos de longo prazo”, como diz o próprio Dawkins em O Gene Egoísta. Mas pertencer a um grupo não bastava. Os genes tinham mais chances de se perpetuar se o indivíduo participasse de uma coalização vencedora. Grupos mais harmônicos e cooperativos, que armavam emboscadas com maestria, construíam boas ferramentas e abatiam o inimigo sem piedade, superavam grupos humanos desunidos.

A evolução favoreceu, assim, a tendência a dois comportamentos opostos. Entre os membros do grupo, ganhou o páreo o indivíduo capaz de sentir emoções que possibilitavam a cooperação. É o caso da compaixão, a satisfação em fazer amigos, a noção de culpa (sentimento que nos empurra para reparação e conciliação com o grupo), a vontade de castigar quem não coopera, a obsessão humana com a reputação, o medo de ficar sozinho. Ao mesmo tempo, emergiu a tendência à hostilidade e à violência contra grupos rivais. É o que os biólogos chamam de “altruísmo paroquial”.

Basta uma olhadela na história mundial para perceber que boa parte dela se resume a hordas, gangues, tropas, tribos, times, bandos, exércitos – enfim, coalizões de homens jovens cooperando entre si – lutando contra outras coalizões de homens jovens. A religião, nessa história, é mais um pretexto para justificar uma antiga tendência humana ao antagonismo entre grupos.

Não nego que algumas crenças incitem os fiéis à violência e sejam mais problemáticas que outras. Mas achar que guerras e atentados diminuiriam se as religiões acabassem é ser otimista demais com o homem. Como mostrou o século 20, não é preciso religião para haver massacres e genocídios.







A QUEM INTERESSA CRIMINALIZAR A RELIGIÃO MUÇULMANA


A população do mundo ocidental está com medo. Mais uma vez, o terror mostra sua face. Alguns dizem que estes atos demonstram a falta de Deus.

Calma com o andor. Os crimes foram cometidos em nome de Deus. Podemos afirmar que estamos com excesso de Deus.

Na verdade, embora a imprensa internacional nos bombardeie com a ideia de que as motivações terroristas são ideológicas, provocadas por um braço radical do Islamismo, isso não é verdade. Um alto representante religioso disse que os atos terroristas fazem mais mal para a religião islâmica do uma pretensa blasfêmia a Maomé. Certamente, a população de profissão islâmica foi a mais prejudicada nesse episódio, assim como o segmento mais beneficiado foi a extrema direita, xenófoba e racista, que deseja varrer a população emergente do terceiro e quarto mundo que invade a Europa.

Algum tempo, li um artigo feito em cima de pesquisa sobre motivações de homens e mulheres bomba. De maneira geral, os mártires tem uma visão muito superficial da religião muçulmana. O que os atrai para o sacrifício é o reconhecimento de seu povo e, principalmente, a proteção financeira de sua família. Não podemos esquecer de que essas populações vivem em situações de miséria inimagináveis para nós. Essa história de morrer para possuir setenta virgens no paraíso é balela.

O que está acontecendo é que o mundo está todo conectado. Todos começam a ter ideia de que pode existir mundo melhor, mais justo, do que aqueles que vivem, muitas vezes de injustiças sociais degradantes, onde a vida não vale quase nada. Esse mundo melhor ficou mais perto e mais factível. Esse mundo, entretanto, é perigoso para aqueles que sempre viveram da exploração de seus semelhantes, daqueles estão acostumados a manter o poder a custa de iniquidades e crueldades.

Para eles, basta colocar a responsabilidade dos males do mundo nos povos desenvolvidos. Aí entra a religião muçulmana. Ela é uma bandeira para seus desígnios. É utilizada por ser intolerante com outras religiões, como são intolerantes as cristãs e a sionista, todas descendentes dos ensinamentos de Moisés.

Mas para um povo que não conhece regime democrático, que não conheceu a revolução industrial, que ainda vive a idade média, com altos níveis de analfabetismo, isso é suficiente.

É a velha luta de classes, identificada por Marx, agora em nível planetário. Não é luta ideológica, não é luta religiosa, embora esses fatores estejam presentes.

Os povos ocidentais, desenvolvidos, certamente, com seu desprezo aos povos mais atrasados, tem papel preponderante na manutenção da miséria. Se os Estados Unidos tivessem utilizado uma porção ínfima dos dólares que queimaram arrasando populações como a afegã, em educação e respeito aos costumes daqueles povos, certamente, hoje, não teríamos terrorismo. O mesmo se pode dizer dos europeus, com seu trágico  colonialismo.

Mas o terrorismo também interessa aos líderes dos povos desenvolvidos. Sim, porque o medo, incutido na população, facilita seu domínio, domesticando-a.


domingo, 21 de dezembro de 2014






 A Venezuela vende 80% de seu Petróleo aos EUA. Apesar disso, o caudilhinho com bigode anacrônico vive cuspindo diatribes contra americanos. Parece que esse fato nunca tirou o sono  dos vizinhos.

E o rato ameaçando o elefante. Agora a Venezuela está quebrada porque Seu único PRODUTO de exportação, o petróleo, caiu de preço. Sabendo disso, os dirigentes cubanos, que correm o risco de perder o sustento de Maduro, como já perderam da ex-União Soviética, aceitam negociar com a pátria do capitalismo. 


Um povo pode ser subjugado enquanto o regime lhe fornece condições mínimas de sobrevivência. Se não, vomita seus governantes. Maduro sifu.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014




MILITARES, LULA, bolsonaro e o canto da sereia

        Era início de 1964. Termo desconhecido para a época, “estava tudo dominado”. Os generais subservientes a Washington dariam o golpe, derrubando o presidente João Goulart. Ele era político que causava profunda irritação aos americanos, por causa de seu discurso nacionalista. O governo americano sempre foi muito cioso de seus empreendimentos além-fronteiras.

        Havia um “plano B”. Se os generais falhassem, a sétima frota estaria de prontidão nas costas brasileiras e, aí, a invasão dos marines seria inevitável. De qualquer forma, a frágil democracia brasileira seria derrubada.   

Provavelmente, se os americanos tivessem nos invadido, o primeiro ditador não seria Castelo Branco e, sim, Lincoln Gordon.

        Não houve necessidade de invasão. Os militares brasileiros fizeram o serviço sujo. Não foi difícil. Eles tinham sido cooptados desde o fim da segunda guerra mundial. Havia, é claro, o perigo comunista. Bastava compará-lo ao nazista para que nossos homens de verde tivessem urticária. Naturalmente, certo apoio financeiro foi necessário para o convencimento dos líderes revolucionários.

         João Goulart não era comunista. Pelo contrário, pertencia à classe conservadora, a elite do país. Era um dos maiores latifundiários do Rio Grande do Sul. Certamente um oportunista que verificou haver forte reação do país ao capital estrangeiro e transformou isso em discurso político.·.
       
        O primeiro militar presidente foi o Mal. Castelo Branco. Sua admiração ao “american way of life” era total.

        Castelo Branco sabia que a presença dos militares no comando do país seria desastrosa, principalmente para eles mesmos. Tomou posse prometendo eleições gerais para o próximo ano (1965).

        Não conseguiu fazer as eleições e acabou morrendo misteriosamente. A sedução do poder é uma força fortíssima, quase irresistível. A ditadura militar durou 21 anos e os militares somente entregaram o comando quando o país estava quebrado, sem apoio popular e a situação dos quartéis era anárquica.

        Isso é história. Vivemos, desde 1985, em uma democracia, talvez menos frágil que a anterior.

        Mas a história se repete. Os atuais detentores do poder também provaram suas delícias e também querem se eternizar no comando do país. O discurso não é diferente do de João Goulart, o plano é de uma república sindicalista. O poder é uma amante irresistível. As promessas precisaram ser douradas com acenos de justiça social, para serem palatáveis. Foi implantado o bolsa família, virtuoso em sua gênese, mas que fraqueja se o país não se modernizar. Só que a modernização não pode ser feita, retira poder.

        Dizem que os extremos se tocam. Os fins últimos dos militares e dos sindicalistas foi a tomada do poder. A prova disto é que Lula é hoje um feliz representante das elites.

        Que Bolsonaro tem a ver com isso? O capitão Bolsonaro, ao contrário do que aparenta sua figura pública, é uma pessoa inteligente, calculista e tem profundos conhecimentos de tática e estratégia. Ele também quer o poder. Quer ser presidente da república. Se possível, ainda em 2018. Embora pregue golpe de Estado, almeja chegar ao governo federal nos braços do povo. Tal como Hugo Chaves, que adquiriu experiência na caserna e foi eleito presidente da Venezuela depois de fracassada tentativa golpista.

        O eleitorado de Bolsonaro é a classe média, incluída a classe média oriunda da pobreza através do bolsa família. Essa classe é conservadora e almeja estabilidade e segurança. Está assustada com a violência epidêmica que grassa no país. Estranhamente, nenhum dos candidatos a presidente, nesta última eleição, apresentou um plano consistente para reduzir a criminalidade no país.

        Bolsonaro vai basear sua plataforma política justamente em um plano com este objetivo, seja ele qual for. Também vai bater muito no PT, porque aproveitará o desgaste do partido, com 18 anos de governo.

        Militares, sindicalistas, Bolsonaro todos tem o mesmo objetivo. O canto da sereia. Deus nos proteja.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014



Um sorriso que chora
                                                                                             
                                                                            Maria Avelina Fuhro Gastal

                       

                  
                            Há muito se perderam nas palavras. Do encontro entre o dito e o escutado restam cicatrizes e feridas abertas.

                            Aos poucos, as vozes deram vez ao silêncio. Na tentativa de não ferir, nem ser ferido, calaram seus temores e, junto com eles, o amor perdeu sua vez.

                            No vazio produzido pelo não-dito, a intimidade foi sufocada. Hoje tateiam-se como dois estranhos.

                            Ela manuseia as roupas como se fosse um ritual. Coloca em cada dobra o seu ressentimento e amargura. Na perfeição da peça, a tentativa de reorganizar-se. Não tem urgência, mas está determinada. Quer deixar ali toda a dor e levar só a coragem para recomeçar.

                            Não está sendo impulsiva. Apenas sente-se vencida pelo cansaço e pela desesperança. Quer manter entre eles um pouco do afeto que os uniu.

                            O dia se desfez nas dobraduras e a noite já espia por entre as frestas.

                            Pensou em deixar um bilhete. Não achou digno. Apesar de tudo, eles merecem mais. Quer um último ato respeitoso e definitivo.

                            A fraca luz do abajur ilumina o ambiente com a suavidade que o momento requer. Ela se deixa abandonar na poltrona, atenta aos sons que vêm da rua.

                            O estalar do elevador e o tilintar das chaves a impulsionam. De um salto, levanta-se, alisando a saia, a blusa e os cabelos. Qualquer desalinho seu será imperdoável. Não pode enfraquecer, nem perder-se agora.

                            Ao mesmo tempo em que ele abre a porta e entra, ela pega a mala e se dirige para a saída. Seus olhos se cruzam. Os dele se voltam para a mão dela e retornam, em tom de dúvida (ou será de desespero?) para o seu rosto.

                            Com um sorriso que chora, ela toca suavemente o rosto dele e sai. Ele se vira a tempo de buscar a mão dela. Segura-a com um afeto há muito adormecido. Ela solta a mala, envolve aquela mão que tantas vezes a fez estremecer ao toque, roça os lábios levemente no seu dorso e a solta. Pega a mala, entra no elevador e parte.
                  

domingo, 30 de novembro de 2014




O Imperativo da Inclusão


Além de ser um problema moral, a exclusão social custa caro. Para combatê-la, é preciso mirar alvos claros, ter financiamento adequado e dados precisos


Grandes avanços foram feitos para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) desde que eles foram definidos em 2000. Mas, infelizmente, muitos países ainda estão muito longe de atingi-los. Mesmo as nações que fizeram um progresso substancial, alguns grupos – incluindo povos indígenas, moradores de favelas e áreas remotas, minorias religiosas e sexuais e pessoas com deficiência –  ainda são constantemente excluídos. Como apontou um relatório recente do Banco Mundial, entender o porquê é essencial para garantir que esforços futuros para o desenvolvimento sejam mais eficientes e inclusivos.
A exclusão econômica e social não é apenas um problema moral, mas também é caríssima. Um relatório do Banco Mundial de 2010 sobre a exclusão dos ciganos dos sistemas econômicos e educacionais na Europa estimava uma perda de produtividade de pelo menos 172 milhões de dólares na Sérvia, 273 milhões de dólares na República Tcheca e 600 milhões de dólares na Romênia (calculada utilizando as taxas de câmbio de abril de 2010).
Essas perdas refletem as consequências de longo alcance da exclusão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Banco Mundial descobriram que crianças com deficiência têm menos chances de ingressar em escolas do que os seus pares não deficientes – e que entre elas há um índice maior de evasão escolar. Na Indonésia, há uma discrepância de 60% entre crianças com e sem deficiências que frequentam o ensino fundamental e uma diferença de 58% no ensino médio. O sentimento resultante da exclusão e da alienação pode enfraquecer a integração social e até mesmo levar à agitação e conflitos.

A agenda nova de Desenvolvimento Que Ira suceder OS ODM reflete Uma Consciência Mais aguda da importancia da Inclusão crucial. Sem Seu Relatório Sobre a agenda Pós-2015, o Painel de Alto Nível de Pessoas Eminentes enfatizou a Inclusão, declarando que "nenhuma à Pessoa - independentemente de etnia, género, Localização Geográfica, Deficiência, Raça OU Outra Condição - devem SER negados OS DIREITOS Humanos Universais e Oportunidades Econômicas Básicas ". A agenda nova de Desenvolvimento, Afirma o Documento, DEVE "Acabar com a discriminação" e "enfrentar a Pobreza, Exclusão um eA Desigualdade".

Dado isto, não surpreende que a inclusão seja a pedra angular da ambiciosa nova proposta para os sucessores dos ODM, os Objetivos Sustentáveis Para o Desenvolvimento (OSD) – começando com o processo de seleção dos objetivos, em que os países em desenvolvimento têm sido protagonistas.

Atingir os objetivos para a inclusão social e econômica não será fácil. Os alvos devem ser bem definidos, mensuráveis, executáveis e amparados por monitoramento e avaliações eficientes, bem como por estruturas comuns de responsabilização. Além disso, deve ser criado um sistema para ajudar os países a transformar os objetivos globais acordados na Organização das Nações Unidas (ONU) em medidas concretas que se adaptem às suas circunstâncias econômicas e normas sociais particulares.

Para atingir este fim, este ano o governo mexicano sediou uma série de seminários que reuniram representantes governamentais, agências da ONU, bancos de desenvolvimento multilaterais e o meio acadêmico para compartilhar visões e as melhores práticas e metodologias para implementar, avaliar e monitorar objetivos inclusivos e sustentáveis. Essas discussões se basearam no compromisso da comunidade internacional em enfrentar as causas estruturais da pobreza, desigualdade e degradação ambiental.

A inclusão social e econômica está no centro dos objetivos do grupo do Banco Mundial de erradicação da pobreza extrema e promoção da prosperidade partilhada. Afinal de contas, esses objetivos não podem ser atingidos a menos que o investimento em desenvolvimento beneficie a todos. Garantir isso requer o enfoque em grupos que têm sido repetidamente marginalizados. É por isso que o grupo do Banco Mundial escolheu a igualdade como principal tema da reunião anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) deste ano.

Políticas e programas que buscam a inclusão social não necessariamente fazem mais; em vez disso, fazem as coisas de outro jeito. Com essa abordagem, a África do Sul, saindo de uma condição de segregação institucionalizada, fez um progresso considerável na direção do ideal de uma “nação arco-íris” em apenas duas décadas.

De modo similar, Bangladesh avançou na questão da inclusão ampliando a participação no seu antes excludente sistema informal de justiça, o shalish. O Programa de Redução da Pobreza nas Montanhas do Norte, no Vietnã, criado para oferecer serviços sociais melhores e uma infraestrutura sustentável para os moradores pobres da região, demonstrou o papel crucial que os membros das comunidades de minorias étnicas podem ter nas iniciativas de desenvolvimento.

Mahmoud Mohieldin E o enviado especial do presidente do Banco Mundial Sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Maria Beatriz Orlando E Especialista Sênior em Desenvolvimento afazeres sociais Banco Mundial. 

(Tradução: Roseli Honório)
© Project Syndicate 2014
Veja 29/11/2014


quarta-feira, 26 de novembro de 2014




Francisco Goya - 3 de maio de  1808



coisas que intrigam

SE NÃO EXISTE NADA MAIS CERTO DO QUE A MORTE, PORQUE TANTA GENTE TRATA A MORTE COMO EXCEPCIONALIDADE?


segunda-feira, 24 de novembro de 2014






CRENDICES

Uma vez, resolvi defender a existência de Deus para meu analista, em plena sessão. Ele disse que minhas crendices não tinham espaço no tratamento. Fiquei muito ofendido. Ora, tratar meus sentimentos mais transcedentais como "crendices". Ele comparava-me com um adorador de religião africana, um praticante de saravá.

Nãe esqueco a cena e, agora, muitos anos depois, vejo como fui idiota e preconceituoso. Meu terapeuta estava certo, como sempre esteve certo em tudo que disse. Eu não tinha maturidade para entender certas coisas.

Crendice é aquilo que se crê. A crendice é a estrutura básica de tudo que é religião, da católica, à protestante, à muçulmana, espírita, etc. Também é a essência da ideologia. Dito assim, parece simplificação mas é  assim mesmo. Podemos substituir a palavra crendice ou crença por magia. É tudo a mesma coisa. Já li que o ato da oferenda, na missa católica, é ritual de magia branca. Pode ser.

A visão religiosa permeia grande parte de nossa vida. No Face, postaram que um copo d'água antes de dormir evita AVC. Esta é uma interpretação religiosa, tão religiosa como aquela que pede para curtir a imagem de Nossa Senhora. Isso também vale para muito posicionamento político.

Vejam bem, não sou contra religião, como não sou contra a política. Essa são uma posturas individuais e deve ser respeitadas, mas penso que essas coisas precisam ser tratadas friamente, baseadas em em experimentação científica. Precisamos ter consciência disso para evitar muito sofrimento.

Se houvesse essa consciência em nível mundial não teríamos hoje o genocídio de cristãos por muçulmanos radicais. Afinal ambas as religiões tem o mesmo princípio,   dependem da fé para existir.

domingo, 23 de novembro de 2014





BONS TEMPOS, HEIN?

Os anos setenta foram o máximo para quem queria ganhar dinheiro. O país estava encharcado de empréstimos dos árabes. Eles resolveram cobrar pelo petróleo e ficaram riquíssimos. As obras pipocavam em toda  a parte. Como não  havia uma  estrutura jurídica de verdade no Brasil (estávamos sob a égide do AI-5) quem quisesse ganhar dinheiro com obras públicas estava  feito.

O esquema funcionava assim: o cargos chaves do governo eram ocupados por oficiais de  alta  patente. Esses militares tinham limitado  seu orçamento familiar, porque havia um viés moralista nos altos  escalões  do governo. Então as grandes empreiteiras (e até as pequenas) mandavam convite para o general ou coronel, que cuidava do dinheiro público, para grandes festanças, em locais chiques.

Essas festas, mesmo para quem tinha convite, eram caras. Exigiam roupas, sapatos, cabelereiros e mesmo automóveis melhores. Logo, o militar, pressionado pelos  novo status da família, estava enforcado financeiramente. Era aí que entrava o representante da empresa, o doleiro da época.

Trabalhei, como arquiteto, em uma organização federal. Logo ao chegar, me mandaram receber uma obra bem grande. O empreiteiro, muito simpático, me acompanhou. Disse que  era filho de um general muito influente no governo militar, ou "revolução" como era chamada. Falou que tinha se formado em engenharia  metalúrgica, mas viu que  se ganhava dinheiro com obras públicas.

Montou uma empreiteira, cuja organização espacial era uma  pasta zero zero sete. O telefone da empresa era o do  açougueiro vizinho. Logo ganhou uma obra enorme.

Chegamos ao local. O prédio construído era um monstrengo, era impossível enumerar o que estava certo, tal era a tortura das paredes e o mau acabamento de pisos,  esquadrias, etc.

Verifiquei que para receber a obra corretamente, ela teria que  ser posta abaixo, o que era  inviável, tendo em vista que já tinham sido aprovadas as etapas anteriores. Senti a maldade de meus colegas. Lembrei, também, a importante informação  de que o pai era general, destacado membro do governo. Recebi a obra sem nenhuma restrição. Era uma escola e, mais  tarde, seu diretor faria pesadas queixas da qualidade do prédio.

O empreiteiro, jovem como eu, ficou muito agradecido e como amigo, acompanhei sua meteórica  carreira. Em pouco tempo, seus prédios foram ficando  razoáveis. Ele comprou uma  mansão na  zona sul e  uma  mercedes prateada.

Contou-me, uma ocasião que, acidentalmente, ouviu um telefonema de um membro do  sindicato da construção civil em se  combinava o superfaturamente de uma obra, com a licitação arranjada. Ficou sabendo do menor valor e, espertamente, entrou no certame com um preço um pouquinho menor, ganhando a licitação. Seus colegas ficaram furiosos com ele, mas, como era  filho do general, ficou por isso mesmo.

Os membros da organização em que atuava, senhores respeitáveis, a primeira coisa que faziam ao  receber o cargo, era colocar sua amante no mesmo emprego, para controlá-la e  para que fosse paga com o meu, o seu, imposto. Houve um presidente da organização que não  satisfeito de colocar duas  amantes,  empregou marido de uma delas, que era açougueiro. Foi o caso, exemplar, de um corno remunerado.

Como a inflação era alta, todos que podiam, guardavam seu dinheiro no over night, que era uma maneira de ganhar dinheiro com a inflação. Pois esses senhores respeitáveis desviavam enormes quantias  do governo para suas contas pessoais e faturavam no over night até o pagamento da  fatura.

Poderia denunciar a roubalheira, mas para quem? Não havia justiça, a imprensa era amordaçada. O resultado de uma denúncia seria a perda do emprego, com sorte. Sem sorte, o resultado poderia ser bem pior.

Esqueci de contar o que houve  com meu amigo empreiteiro. Reunia os amigos em uma mesa de bar para contar suas conquistas amorosas. Um dia, ao chegar em casa, pegou a esposa com um amante, na cama do casal. Vendeu tudo, menos  a mercedes e transferiu-se para a Bahia. Soube que fez o maior sucesso lá.

Hoje, vejo que aquele pessoal era mero aprendiz de feiticeiro.



BOSSA NOVA

Assisti, no youtube, algumas interpretações  de Márcio Faraco. São músicas lindas, muito românticas. Soube que seu parceiro é o também alegretense, Paulo Berquó Farias. 


Márcio Faraco mora na França e faz o maior sucesso lá. Seu forte é a bossa nova. 


Aliás, a bossa nova, o movimento musical mais importante do Brasil, é sucesso nos Estados Unidos, na Europa e até no oriente. Constantemente surgem novas melodias e novos arranjos de melodias clássicas, como as  de Tom Jobim, Vinícius e Carlos Lira. 


Quer ouvir bossa nova? Viaje. Aqui no Brasil ela não existe.

domingo, 19 de outubro de 2014




Ibirapuitã, um rio privatizado?


         Viajei a Alegrete por uns dias. Aproveitei para matar a saudade do rio Ibirapuitã, mais especificamente do trecho em que chamávamos de “Perau”, onde aprendi a nadar e também aprendi muitas coisas da vida.


         Visitei, então, o Perau. A primeira decepção, normal, ele era menor do que estava registrado em minha memória. Claro, cresci, o mundo muda suas proporções. A segunda, me deixou chateado. O Perau, abandonado, virou depósito de lixo a céu aberto. A terceira me deixou revoltado. As margens do Perau estão cercadas. Que  é isso?




O rio Ibirapuitã, um patrimônio da comunidade, está cercado, permitindo o acesso somente a alguns privilegiados.

         Lembrei-me, imediatamente, de alguns  rios que banham cidades conhecidas, como o Sena, em Paris, O Tâmisa, em Londres, o Tibre, em Roma, o Reno, na Alemanha. Todos são cartões postais, orgulho para seus habitantes. O rio Ibirapuitã fez o caminho inverso. Tornou-se vergonha para os habitantes de Alegrete e está sendo escondido, cercado.

         Bem, o rio poderia estar cercado apenas no Perau, que já seria uma pena. Segui, a pé, até um centro recreativo do Município. Alí, certamente, poderia apreciar a beleza e a elegância de meu rio. Aquele centro, abandonado, também, apenas com algumas crianças esforçando-se, com diligência, para destruir um prédio público, levava, também, a uma cerca.









Que tristeza. A administração pública faz uma avenida sem calçadas, esquecendo-se de seus pedestres, cadeirantes e ciclistas, com um centro recreativo que esnoba o que o local tem mais belo, o rio. Repito, que tristeza. A cidade não merece isto.