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terça-feira, 2 de dezembro de 2014



Um sorriso que chora
                                                                                             
                                                                            Maria Avelina Fuhro Gastal

                       

                  
                            Há muito se perderam nas palavras. Do encontro entre o dito e o escutado restam cicatrizes e feridas abertas.

                            Aos poucos, as vozes deram vez ao silêncio. Na tentativa de não ferir, nem ser ferido, calaram seus temores e, junto com eles, o amor perdeu sua vez.

                            No vazio produzido pelo não-dito, a intimidade foi sufocada. Hoje tateiam-se como dois estranhos.

                            Ela manuseia as roupas como se fosse um ritual. Coloca em cada dobra o seu ressentimento e amargura. Na perfeição da peça, a tentativa de reorganizar-se. Não tem urgência, mas está determinada. Quer deixar ali toda a dor e levar só a coragem para recomeçar.

                            Não está sendo impulsiva. Apenas sente-se vencida pelo cansaço e pela desesperança. Quer manter entre eles um pouco do afeto que os uniu.

                            O dia se desfez nas dobraduras e a noite já espia por entre as frestas.

                            Pensou em deixar um bilhete. Não achou digno. Apesar de tudo, eles merecem mais. Quer um último ato respeitoso e definitivo.

                            A fraca luz do abajur ilumina o ambiente com a suavidade que o momento requer. Ela se deixa abandonar na poltrona, atenta aos sons que vêm da rua.

                            O estalar do elevador e o tilintar das chaves a impulsionam. De um salto, levanta-se, alisando a saia, a blusa e os cabelos. Qualquer desalinho seu será imperdoável. Não pode enfraquecer, nem perder-se agora.

                            Ao mesmo tempo em que ele abre a porta e entra, ela pega a mala e se dirige para a saída. Seus olhos se cruzam. Os dele se voltam para a mão dela e retornam, em tom de dúvida (ou será de desespero?) para o seu rosto.

                            Com um sorriso que chora, ela toca suavemente o rosto dele e sai. Ele se vira a tempo de buscar a mão dela. Segura-a com um afeto há muito adormecido. Ela solta a mala, envolve aquela mão que tantas vezes a fez estremecer ao toque, roça os lábios levemente no seu dorso e a solta. Pega a mala, entra no elevador e parte.
                  

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