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terça-feira, 8 de abril de 2014




Prezada amiga e colega


         Algum tempo atrás, estavas decepcionada com a profissão. Pensaste em largar tudo e fazer concurso para o Banco do Brasil. É uma alternativa válida. Podes tentar concurso para outras áreas.

         Passei 37 anos lutando para fazer arquitetura. É uma luta diária, na maior parte das vezes, inglória. Coloca em jogo tua saúde financeira (e da família também) e também tua saúde mental.

         Quando me formei, em 1972, estávamos no “Brasil Grande”. A ditadura militar massacrava quem se opunha a ela, mas a economia, graças a empréstimos generosos, oriundos dos petrodólares, fazia o país crescer, ao que chamamos hoje, de níveis chineses.

         Meu sonho, grandioso como de um bom leonino, era montar uma empresa de consultoria, se possível, multinacional. Pedi demissão de meu tranquilo emprego no Banco do Brasil, fiz engenharia de segurança e comecei a me preparar para fazer administração de empresas.

         Naquela época, havia tanto serviço que meu limite de produção era o meu tempo. Tinha um belo escritório na esquina da Felipe Camarão com a Oswaldo Aranha, com vista para a redenção. Contratei um arquiteto e mantinha secretária em tempo integral.

         Fazia desenvolvimento de projetos para o Banco do Brasil, residências para ex-colegas, quando obtinham financiamento imobiliário, perícias, avaliações e vistorias para o SFH. O sonho estava se realizando.

         Em 1983 faliu o BNH e, logo depois, o Brasil quebrou. Como deves saber, os empréstimos dos governos militares foram contratados com juros variáveis que, com o fim da farra dos petrodólares, foram às alturas. Isso, junto com a má administração de recursos e a anarquia que havia se instalado, levou o país para o buraco (como a imprensa era amordaçada, fiquei sabendo disso depois).

         Minha consultoria foi para as cucuias. Na época, era um pobre ingênuo. Não sabia que consultoria, no Brasil, é sinônimo de lavagem de dinheiro.

         Bom, em síntese é a história de um arquiteto no Brasil. Certamente muito parecida com a tua e de quase todos os outros arquitetos.

De vez em quando, me arrependo de ter pedido demissão do Banco do Brasil. Mas é só de vez em quando.

De maneira geral, a vida é só uma e passa muito rápida. Se não tivesse tido coragem e me aventurado, não teria essa história para te contar. Esse já é um bom motivo para ter feito o que fiz.

Vamos ao que interessa. Estudamos e estamos aqui para ganhar dinheiro. Se tivéssemos outros interesses, teríamos seguido a carreira eclesiástica ou seriamos monges na Índia.

Nascemos e vivemos neste país, que é o país do jeitinho. Hoje, praticamente, toda a família tem um arquiteto (a). No tempo do Brasil Grande, as faculdades se disseminaram e ninguém pensou em fechá-las quando veio a crise. Como somos um país de ignorantes e tolos, quando alguém necessita de um profissional arquiteto, procura um familiar, não para valorizá-lo, mas porque tem a expectativa de conseguir um trabalho de graça ou quase de graça (já tive propostas de troca de projeto por churrascos). Às vezes, alguém chega para nós e diz: "preciso que me dês uma ideia". Ideia não se dá, se  vende.

Nossos representantes em conselhos e sindicatos, via de regra, funcionários públicos ou professores de faculdades, se reúnem para medir beleza e dessorar sobre filosofia da arquitetura. Isso não enche barriga de ninguém. Vai ver se os médicos tratam a prática de medicina com discursos de boas intenções.

Minha sugestão é de que façamos como na Espanha. Lá, quando alguém precisa de um trabalho de arquiteto, vai ao sindicato deles. Recebe uma lista de profissionais aptos para fazer o serviço. Escolhe um e contrata, vê bem, pelo sindicato. Não tem o choro, tipo, “ora, somos amigos”. Feito o negócio, o profissional recebe pela tabela. Assim, dá para trabalhar.

Como disse, o Brasil é o país do jeitinho. Nós, arquitetos, levamos mais de 30 anos para termos nosso Conselho. Antes, pertencíamos à geleia geral do Confea e dos seus Creas. Agora, com o Cau, podemos fazer isso.

É só querer.


3 comentários:

  1. Confesso, me arrepiei com o texto, ele realmente conta a nossa história profissional...profissionais ingênuos que um dia pensaram em trabalhar, vencer e engrandecer a arquitetura.Para ser bem sincera também não me arrependo das minhas escolhas mas acho ótimo que meu filho, apesar de ter vocação, escolheu outros caminhos. Abração e obrigada pelo excelente texto.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Obrigado, Sílvia. Sabemos, pelo menos, que não estamos sozinhos nessa vida quixotesca. Abraços
    Nenhum dos meus três filhos é arquiteto

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