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quarta-feira, 9 de abril de 2014



FRANCISCA HELENA


         Era sexta feira. Estava em reunião dançante da Faculdade de Odontologia. Após reforçar minha coragem com algumas cuba libres, fui tirar para dançar uma moça que era a cara da Jeanne Moreau.

         Jeanne Moreau tinha aparência seriíssima. Olhava-me como carregasse todas as tragédias do mundo às costas. Com esse semblante, não me animei a lhe dirigir uma única palavra. Ela, que me olhava fixamente, também não abriu a boca.

         Ao fim da dança, ela disse a primeira frase: - Com licença...
Foi sentar, me deixando plantado na pista.

         Dei a volta por cima e fui tirar para dançar uma loira alta, muito bonita. Começamos a conversar imediatamente. Senti como se fossemos velhos conhecidos. Na verdade, ela falava bastante e eu a ouvia. Disse-me seu nome: Francisca Helena. Era um nome pitoresco.
  
         Francisca Helena disse-me que estava com uma amiga. Não estudava o que era exceção entre as pessoas presentes. Trabalhava em loja de rolamentos, na Avenida Farrapos.  Notei que ela atropelava a língua pátria com muita frequência.

         A noite correu rápida e alegre. Dançávamos, sentávamos e conversávamos. Quando elas disseram que iam para casa, me ofereci para levá-las.

         Francisca Helena deu como endereço uma rua tranquila no bairro Montserrat. Deixei as duas em um prédio de apartamentos classe média, com quatro pavimentos.

         No dia seguinte, me dei conta de minha conquista. Francisca Helena era um mulherão. Loira de olhos muito azuis, corpo perfeito, longas pernas, esguias, lembrava uma modelo de perfume francês. Tinha a questão da gramática, mas deixa para lá.

         Ela não tinha me dado número de telefone (celular não havia). Não sabia seu sobrenome nem do número do seu apartamento. Era sábado e resolvi fazer uma loucura. Fui até o edifício de Francisca Helena. A porta da frente estava aberta e comecei a bater de porta em porta, a partir do quarto pavimento, perguntando por uma loira Francisca.

         No penúltimo apartamento do segundo subsolo, fui atendido por Francisca Helena. Mandou-me entrar, apresentou-me à família, uns alemães, todos muito grandes e simpáticos. Quando contei como a encontrei, senti que a tinha ganhado. Francisca Helena passou a me tratar como cavaleiro que havia chegado montado em um corcel branco.

         Começamos a namorar. O porte de Francisca Helena me deixava envaidecido. As pessoas viravam-se quando passávamos. Para esconder sua pouca cultura, quando estávamos em turma de amigos, discretamente a interrompia, ao dar algum palpite.

         Naquela época, início dos anos sessenta, as moças não davam para os namorados como dão hoje. Isso deflagrava um jogo de sedução irresistível. Cada avanço no corpo da namorada era considerado como vitória, a ser comemorada com os amigos com muito chope. Francisca Helena, apesar de deixar beijá-la logo no início, revelou-se fortaleza inexpugnável.

         Não é que Francisca Helena não gostasse de sexo. Ela gostava muito. Seus gemidos traiam-na. Mas tinha sido criada numa moral alemã muito rígida. Teria de casar virgem.

         Esqueci de contar. Francisca Helena tinha 27 anos. Eu tinha 22. Ela era cinco anos mais velha. Utilizava esse argumento para convencê-la que, aos 27 anos, ela já era quase titia e, se não mudasse de opinião, poderia ficar assim para sempre.

         Era tudo sacanagem minha. Na verdade, não aguentava mais de tanta tesão por Francisca Helena. A diferença cultural me fazia crer que nossa relação não iria longe, o que mais me espicaçava o desejo.

         Uma ocasião, depois de umas cervejas e um presentinho bem escolhido, consegui que ela me deixasse tocar em seu peito. Muito emocionado, perguntei se havia gostado. Disse ter se sentido como uma fruta apalpada na feira.

         Não desisti, entretanto. Uma noite, houve conjunção favorável dos astros. Minha mãe viajou e nosso apartamento ficou só para mim.

         Convidei Francisca Helena para irmos até em casa, jurando solenemente que a respeitaria. Ela disse que não achava uma boa ideia e eu insistindo e insistindo. Nesse momento, ela disse algo que, definitivamente, encerrou nossa noite de sexo: “-Não vou. Cachorro que come ovelha, só matando”.

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