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quarta-feira, 12 de março de 2014




O Nascimento de Vênus

Quando eu tinha treze anos e morava em Alegrete, minha prima de dezessete, de Quaraí, foi residir conosco.

Em Quaraí não havia Curso Normal, que formava professoras primárias na época. Então minha tia, irmã do meu pai, arranjou com minha mãe para que a filha fosse para Alegrete estudar, hospedando-se em nossa casa.

Fiquei fascinado com a presença da prima, pois ela iria substituir minha irmã que havia casado e morava em outra cidade. Não foi bem isso que aconteceu. Aos poucos eu comecei a nutrir por ela sentimentos bem diferentes dos fraternos, pois era uma moça muito linda.

Eu me apaixonei pela prima, como não podia deixar de ser. O famoso amor de prima me flechou...

Só queria estar com ela, sair com ela. A moça me dedicava uma afeição de irmã e descartava polidamente o primo chato, quando queria sair com suas amigas.

O sentimento foi crescendo e eu ficava cada vez mais apaixonado em silêncio.
Naquela época em minha casa não tínhamos chuveiro elétrico e, no inverno, 
tomávamos banho em uma grande bacia de alumínio, com água aquecida no fogão.

Um dia a prima foi tomar seu banho quente e eu fui espiar pelo buraco da fechadura.
A cena que vi era o quadro de Sandro Boticcelli, “O Nascimento de Vênus”, que eu havia conhecido no “Tesouro da Juventude”.

Lá estava a prima dentro da bacia de alumínio, nua, linda, perfeita, cabelos soltos, como a Vênus do quadro.
Para mim não existia mais a bacia nem a prima e sim uma grande concha de onde Vênus emergia, ladeada de musas...

Foi minha primeira paixão e sofri muito quando ela foi estudar em Santa Maria.
Meses depois uma amiga minha, que estudava no mesmo colégio que minha prima em Santa Maria, veio passar as férias de julho em Alegrete.

Fui logo perguntando pela prima, se ela a conhecia, como ela estava, etc.
Então a amiga inflamou meu coração de treze anos dizendo que não só a conhecia, mas como ela falava muito em mim e havia me mandado um presente por outra colega.
Pronto! Saí como louco procurando a casa da tal colega para buscar o presente, a prova de amor que eu tanto esperava!

Não havia presente algum. A moça não sabia de nada.
Saí pelas ruas chorando e fui sentar num banco da Praça Getúlio Vargas, onde permaneci vertendo minhas lágrimas, me sentindo o mais infeliz dos mortais...
Nas férias de final de ano, soube que ela iria passar por Alegrete em direção a Quaraí, viajando de trem.

Corri para a estação e pude vê-la dentro de um vagão conversando com seus amigos alegretenses, que também foram matar as saudades.
Tentei chegar perto para abraçá-la, mas fui impedido por um cara mais velho, seu fã ardoroso, que me fez perceber a minha insignificante presença.

O trem partiu gemendo apitos e ela me acenou pela janela, sorrindo, sem jamais imaginar que deixava um coração partido naquela plataforma de estação.
Anos mais tarde, quando eu viajava para Porto Alegre, encontrei-a no mesmo trem com um filho nos braços, ao lado do marido.

Alguma coisa estranha bateu forte em mim, mas apenas sorri me lembrando da minha escaldante paixão de adolescente.
Conversamos rapidamente e cada um seguiu seu caminho.

Pensando bem, o saudoso Maria Fumaça e suas estações foram o pano de fundo de muitas estórias...

Renato Pozzobon







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