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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO


Hoje me lembrei do Joãozinho.

Ele era um bebê de um aninho mais ou menos, filho da Araci, uma empregada que trabalhava na minha casa em Alegrete, quando eu tinha uns nove anos de idade.

O menino era uma graça, um verdadeiro anjo louro sorridente, apesar das feridas nas virilhas, resultantes de continuadas micções e sua sofrida mãe não ligava. Minha mãe e minha irmã tomaram as dores do anjo e começaram a trocar suas fraldas constantemente e colocar polvilho antissético em suas partes íntimas. A criaturinha parece que ganhou nova luz e não parava mais de rir de felicidade. Joãozinho tornou-se a alegria da nossa casa. Todos paravam para rir com ele, que ficava dentro de uma grande bacia de alumínio forrada com cobertores.

Araci morava com Joãozinho nos escombros do antigo Cine Ypiranga, na rua Gaspar Martins, em Alegrete. Foi o que conseguiu, após ter sido engravidada e abandonada por um namorado, que foi para Porto Alegre tentar melhorar de vida.

Os meses se passaram e nada de o cara dar notícias. Ela tinha um endereço que ele deixara, mas nunca havia escrito para ele, pois era semianalfabeta.

Foi então que minha irmã, professora primária recém-formada, começou a escrever cartas ao pai do menino, em nome de Araci.

As belas cartas falavam da beleza do menino e da grande esperança que Araci tinha de morar com ele em Porto Alegre, junto com aquela criaturinha sorridente.

Tantas foram as cartas que o pai começou a responder, dizendo que ia mandar buscá-los em breve.

E assim foi. Chegou o dia em que ele mandou dinheiro e lá se foi a Araci, levando consigo a luz da nossa casa: Joãozinho. Sentimos muito a falta do menino, mas ficamos felizes, pois ele iria ter uma família. Nunca mais soubemos do Joãozinho.

RENATO POZZOBON
 

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