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sábado, 24 de março de 2012

GAROPABA



O ano era 1968; O carro era um JK do mesmo ano. A estrada era a 101, que nos levava a Garopaba, onde, mais uma vez, iríamos acampar na praia. Aproveitávamos o fim de semana de um interminável verão. 


Mas deixa-me falar um pouco daquela praia. Garopaba era um tranquilo vilarejo de pescadores durante o resto do ano. No verão, o local era assaltado por um bando de hippies, vagabundos, viciados e toda uma fauna difícil de descrever aqui. Sobre a vila, naquele período, havia uma permanente nuvem formada pelos milhares de baseados acesos. A pequena praia era invadida por aquela turba. Por incrível que pareça, os invasores mantinham ótima relação com os nativos de Garopaba. Talvez se devesse ao fato de haver uma distância abissal na cultura dos visitantes e dos moradores, que fazia com que ambos respeitassem-se. 


Talvez houvesse uma mútua admiração por essas duas culturas. Talvez fosse a grana que os “turistas” traziam, o que dava um certo dinamismo no comércio daquela gente, muito pobre. Mas voltando à viagem. O carro estava lotado de jovens irresponsáveis (isso é um pleonasmo). Naquela época não havia radar nem consciência de se devia respeitar algum tipo de limite de velocidade. A velocidade máxima do carro era 160 km/h, então era essa velocidade de cruzeiro. 


Na estrada, um tipo com um cabelão crespo e barba idem estava pedindo carona. Imediatamente o carro parou. Como não dar carona a um irmão? Ele estava com aparência de sujo, mas não importava. Nós também não gostávamos de banho. Adentrou, ajeitou-se como pode e, muito solícito, ofereceu a cachaça que trazia. A oferta foi aceita, inclusive pelo motorista, e a garrafa foi sendo esvaziada pelo bico, como chimarrão. A velocidade mantinha-se a mesma: a máxima. Havia chovido, o asfalto ainda estava úmido. 


A viagem transcorria tranqüila até, logo após galgarmos uma lomba, demos com uma barreira da polícia federal, a menos de 200 metros. Minha reação foi automática. Preciso frear e rápido, senão irei atropelar a, barreira inteira. Meti o pé no freio com força. O carro, que, vazio, pesava 1.200 kg, saiu deslizando pelo asfalto molhado, indo de encontro a vários carros que já estavam no acostamento, paralisados pela mesma barreira. 


O choque foi lateral, riscando a lataria de uma meia dúzia de Aero Willis, Simcas, Gordinis e outros. O JK só se imobilizou quando amassou o para-choque traseiro de um Dkw Vemag, que, casualmente, pertencia ao meu irmão, barrado antes. Um policial federal aproximou-se do carro. Eu estava horrorizado. Além da desgraça que havia provocado, havia o bafo da cachaça. Pensei: Estou perdido. Minha vida acabou. 


O policial, talvez tão estupefato com o que tinha acontecido, ao me fazer sair do JK, disse que eu deveria dirigir com mais cuidado, mas não me multou. Mandou acertar o prejuízo com os demais proprietários dos carros danificados. Respirei fundo, peguei o talão de cheque e fui, um por um, me desculpando e perguntando quanto estimava o estrago. 


O talão foi quase inteiro. Ali, também, liquidei com uns dois meses de meu querido salário do Banco do Brasil, local onde eu era tido como um retardado, pelo meu pouco interesse pela carreira bancária.

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