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sábado, 24 de março de 2012



MEU ENCONTRO COM KING CURTIS

 Estava de casa nova. Na verdade, meu primeiro imóvel, comprado com a venda de uma carta de consórcio de um fusca, mais o auxílio generoso da tia Gioconda. Era um apartamento de um dormitório, em um pequeno edifício na rua Fernando Machado, no Alto da Bronze. Ficava em um terceiro andar e meio, de fundos para um abacateiro.


De fundos, sim, mas da pequena área de serviço, tinha-se uma vista deslumbrante para o Guaíba. Instalados os acessórios essenciais, como cama, fogão, geladeira, era hora de montar o som. Claro que não era qualquer som. O Zezinho, estudante de arquitetura não podia ter um som mediano. Tinha que ser “o som”.


As peças sonoras, naquela época, eram compradas separadamente, com todo o carinho e dedicação que o aparelho merecia. Era um som sob medida. Primeiro, o toca-discos. Sua marca, Philips. Totalmente manual, como tinha que ser um toca disco de classe. O braço, muito leve, com contrapeso para calibrar a pressão da agulha com o acetado. O contato com o disco era pura carícia. Esse Philips tinha um requinte só dele: todos os comandos eram acionados de três luzinhas no chassi. Vejam só: era só tocar as luzinhas, ele andava, parava ou trocava de velocidade (não podemos esquecer que, além dos long plays, havia os populares singles, em 45 rotações). O Philips ainda tinha uma sofisticação extra. No fim do disco, o prato parava de girar, apagava-se a luzinha do play, acendia a do stop. Supimpa! O amplificador era um Gradiente. Só poderia ser um Gradiente. Certo, havia outros importados, como Grundig, Panasonic e Marantz. Seus preços, entretanto, eram proibitivos (não havia, ainda, globalização). Então tinha de ser Gradiente, um ótimo aparelho. O aparelho só fazia uma coisa: amplificar. Mas fazia isto muito bem, com seus 32 watts de potência. As caixas de som permitiam que fossem exibidos dotes artesanais.


 Com o assessoramento técnico acústico do alemão Günter, foram carregados, com muito esforço, dois tubos de concreto, desses de esgoto, para o apartamento. Não disse que o edifício não tinha elevador, não é? Esses tubos, com um metro de altura e a mesma medida de diâmetro, foram colocados na vertical, cada um com um alto falante de 12” voltado para o piso. Havia, claro, tuiteres montados nas paredes, apoiados em latinhas de cerveja, Mas o som poderoso, mesmo, vinha dos tubos.


Para abrilhantar o resultado, um long play de King Curtis. Seu nome era “Sweet Soul”. Um disco encantador, apaixonante. As músicas, todas em ritmo de soul, com uma grande massa de cordas e madeiras e o sax alto de Curtis rasgando ao meio aquele veludo sonoro. Não dava para parar de ouvir. Quando o Philips encerrava a audição, o braço era levado para o início, e assim por diante. O volume tinha que ser muito alto, para que se pudesse ouvir aquela música, majestosa, reverberando por todo o ambiente.


Algum tempo mais tarde, acabei travando conhecimento com um casal jovem, que era meu vizinho, dois andares abaixo. Querendo exibir a maravilha sonora que possuía, convidei-os para conhecer meu apartamento. Feitas as apresentações iniciais, não resisti e taquei King Curtis no toca discos. O casal se entreolhou, fez um sorriso amarelo e o homem disse: - Esse é o que sempre ouvimos lá de casa. Feliz ou infelizmente, os meus tubos sonoros eram lacrados. Se não, eu teria, literalmente, entrado pelo cano, naquele momento.


É, King Curtis ficou naquele escaninho de minha memória, assim como minha ingenuidade.

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