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terça-feira, 5 de março de 2013





O banquete do mendigo


Lembro-me bem dos meus cinco anos de idade, quando morávamos na rua Barão do Amazonas, em Alegrete, onde meu pai tinha um armazém na esquina com a David Canabarro.

Nossa casa tinha entrada principal pela Barão e um grande portão na outra rua.

Ao lado da entrada principal da casa existia um terreno baldio, com uma paineira gigante ao fundo.

Debaixo dessa árvore vivia o Ordalho, um morador de rua, como hoje se diz. Tinha seus cinquenta anos, mas parecia ter muito mais idade, alquebrado que estava pela vida dolorosa ao relento.

Não usava roupas, mas sacos de aniagem envoltos no corpo, o que lhe facilitava a constante micção, oriunda de problemas na bexiga.

Os pais ameaçavam seus filhos, dizendo que iriam entregá-los ao Ordalho, nos casos de desobediência infantil. Ele era, injustamente, chamado de “o homem do saco”, que levava criancinhas para fazer mingau…

No entanto, era uma pessoa muito dócil.

Sob o teto acolhedor da grande árvore ele havia feito um lar improvisado: um velho sofá que lhe servia de cama e um fogão feito de pedras empilhadas. Nesse fogão ele cozinhava seus alimentos em uma grande lata de querosene de vinte litros.

O pátio interno de nossa casa dava acesso, sem cercas, ao mundo de Ordalho, que era meu fascínio.

Seguidamente eu me evadia de casa e, furtivamente, ia visitar meu amigo. Ele me tratava com muita doçura, me presenteava com santinhos, grilos em vidrinhos e cigarras amarradas em barbantes. Nem de leve fazia jus ao título de ogro que lhe conferiram.

Certa vez, ele me convidou para compartilhar do seu banquete: tripas cozidas na lata de querosene.

Não tive dúvidas em aceitar tamanha deferência e me atraquei nas tripas do Ordalho, cujo sabor permanece até hoje em meu paladar, como um acepipe digno de reis. Esse congraçamento repetiu-se várias vezes.

Numa das vezes, minha mãe me surpreendeu em pleno banquete e, a partir desse dia, não consegui mais pular as cercas que colocaram entre meu mundo e o dele…

Obrigado pelos banquetes, Ordalho!

Erion Renato Pozzobon

2 comentários:

  1. Linda história. A pureza de uma criança que se perde com o passar do tempo. Mas deveria continuar tentanto pular esta cerca. Ela é só imaginária.

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  2. Bem observado, Anônimo. A metáfora, no final, é brilhante.

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